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O Contraponto do Despojamento
Esta é a primeira vez que o Museu
de Arte Sacra abre as suas portas para uma
exposição de arte popular. Isto é
muito significativo pelo reconhecimento da sua importância.
Ela não é, como alguns pensam, uma arte menor.
Apenas se exprime através de diferentes vias, tem um caminho
próprio.
A arte popular é a viva
expressão da criatividade do nosso povo. Através
da sua fantasia o artista reinventa a realidade, estabelecendo intima
relação entre o real e o simbólico. Ao
contrário da arte erudita a arte popular é uma
produção espontânea, na qual
não sobra espaço para a
educação formal ou acadêmica. Quando
algum tipo de transmissão de conhecimento existe, ocorre no
máximo informalmente com outro artista/ artesão
que funciona como iniciador.
Na arte popular há muito mais
espaço para a inventividade e para o saber fazer pessoal do
que na arte erudita. A imaginação é
muito mais livre tanto na forma final do trabalho como nos meios que
ele inventa para resolver os problemas de como fazê-lo. Como
afirma J. A. Nemer [1] “há um alto grau de desafio
aos cânones tradicionais da atividade
plástica” já que esses
cânones são conhecidos “senão
através de observação
superficial”. Assim, a carência de
informação aliada a uma curiosidade
fértil abre caminho para a criação.
No caso da arte popular de cunho sacro ela
expressa, além disso, a devoção
religiosa de quem produz ou de quem encomenda o objeto.
Dois significativos exemplos disso são as imagens
denominadas “Paulistinhas” e os “ex-votos”.
Paulistinhas são imagens simples, de barro ou
gesso, desenvolvidas em São Paulo no século
XIX, que as pessoas do povo costumavam ter em suas casas
para devoção. Os ex-votos são representações
de partes do corpo humano – pés, mãos,
cabeça, etc – usados como forma de veicular
um pedido ou um agradecimento de um milagre.
Outras peças que integram esta
exposição tendem a exprimir de diferentes modos
estas características da arte popular em geral.
A imagem com a beleza rústica da
Virgem com o coração trespassado de setas de
Antonio de Dedé nos remete ao ambiente tosco que ele vive e
aos poucos recursos que dispõe para criar uma figura
tão encantadora como essa.
Mestre Dezinho, criador do São
Pedro e do São Francisco, tem o talhe na madeira elegante e
inconfundível e influenciou toda uma
geração de santeiros no Piauí.
Em Bento, outro escultor em madeira, vemos
uma leitura bastante diferente para o seu São Francisco,
assim como para a Virgem, mas igualmente bela.
A procissão de Maria do Socorro
ilustra com a delicadeza da costura e do bordado uma das mais profundas
tradições do nosso povo.
Os presépios têm um
inconfundível toque de brasilidade seja ele feito de barro
(João das Alagoas), de madeira (Artur Pereira, Miramar e
Adão) ou de pintura (Fé Córdula).
Antônio Poteiro foi um mestre na
arte da modelagem do barro e na pintura. Aqui revela através
da Virgem moldada no seu estilo característico e na sua
forte e vibrante Última Ceia a sua
devoção.
O grande e renomado artista José
Antônio da Silva, autor desta magnífica Via Sacra,
dedicou muitas de suas pinturas à Arte Sacra.
O escultor Higino, nos seus anjos e na
virgem policromados, faz uma interessante releitura do barroco mineiro.
Tota com suas figuras de cerâmica
ao mesmo tempo fortes e delicadas criou toda uma série de
santos que remetem ao expressionismo.
Willi de Carvalho, o mestre das figuras em
miniatura, expressa o espírito de religiosidade e poesia ao
mesmo tempo.
José Bezerra vive em contato com
a natureza, isolado no Vale do Catimbó – PE, de
onde retira a madeira para as suas esculturas.
Odon Nogueira segue a
tradição de Poteiro ao escolher trabalhar com
cerâmica criando, porem, um estilo próprio.
Costinha segue a
tradição dos escultores em madeira iniciada com
Mestre Dezinho mantendo a mesma elegância no entalhe.
Finalmente, Naninho esculpe na madeira uma das mais lindas
representações religiosas, o Espírito
Santo.
Esta mostra no Museu de Arte Sacra é composta
autenticas manifestações da criatividade
e da religiosidade do povo brasileiro.
Notas:
1. A mão devota – Santeiros Populares de Minas
Gerais nos séc. XVIII – Ed. Bem Te Vi.
Edna
Matosinho de Pontes
Galeria Pontes - Curadora da exposição

Autor – Odon Nogueira
Título - ”Madona”
Ano – S/d
Técnica – Cerâmica
Dimensão – 53 x 108 x 50 cm
Da Arte a melhor expressão do Ser “Mãe”
A Arte Sacra Popular contemporânea é produto da interação
daquele que pede para modelar uma imagem, como daquele
que a modelou. Nesse sentido, há uma expressão tanto
dos sentimentos daquele que encomenda, como daquele
que realiza o trabalho, dando uma grande abertura para
a interpretação dos vários signos que estão contidos
na obra.
Cada obra da Arte Sacra Popular contém uma riqueza
de linguagens que busca comunicar algo de muito profundo
e singular, próprio do contexto na qual a obra nasceu.
Para entender este conjunto de linguagens usamos a Semiótica,
que é a ciência que investiga o que passa por todas
as linguagens. Examinando o fenômeno da produção, do
significado e do sentido destas.
Diante da “Madona” de Odon Nogueira sentimos a profundidade
espiritual do ser “mãe”. O rosto da Virgem Maria transluz
a grande excelência da ternura materna, através do seu
olhar, dos seus lábios e do seu semblante sereno. Esta
ternura afaga o filho e o contagia, tornando-o semelhante
à mãe, muito bem expressado pelo artista ao modelar
o Menino Jesus.
Há um destaque a se salientar: a proporção das mãos.
Mãos de mãe que são grandes, pois são elas que tudo
fazem para o filho, a fim de que ele seja sereno e feliz.
Bem por isso, o artista, quebrando as regras do clássico,
coloca um relógio no braço direito da Virgem, indicando
que a mãe é aquela que dedica todas as horas do seu
dia em atenção ao filho que tem.
A beleza que o artista comunica através da imagem da
Madona, é aquela que é própria da mulher que abraça
inteiramente a maternidade, e se doa em ternura ao seu
filho.
Pe.
José Arnaldo Juliano dos Santos
Abertura: 7
de junho de 2011 - terça-feira, às 20
horas.
Período:
De 8 de junho a 14 de agosto de 2011 - De terça a domingo,
das 10 às 18 horas (bilheteria até as 17:30
horas).
Local: Museu de
Arte Sacra de São Paulo - Av. Tiradentes, 676 - Luz -
São Paulo - Estação Tiradentes do
Metrô - Telefone: (11) 5627-5393
Estacionamento gratuito no
Museu, na Rua Jorge Miranda, nº. 43.
Site do Museu de Arte
Sacra: clique
aqui
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