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Galeristas
convidam grifes da arte contemporânea para assinar
catálogos; peças representam 15% do volume de
leilão
Trazido
do interior de Sergipe para vernissage em São Paulo, o
escultor Véio é a feição
desse movimento que começa a se desenhar
ANA PAULA SOUSA
DA REPORTAGEM LOCAL
Sandália de couro nos pés, toco de madeira nas
mãos, Cícero Alves dos Santos tem os olhos baixos
quando a reportagem da Folha chega à galeria
Estação, em Pinheiros. Passam-se alguns segundos
até que ele erga o rosto e, após uma
última talhada no miúdo tronco de imburana,
explique: "Se fico parado, fico meio neurótico. Tô
sempre fazendo uma coisinha. Desde menino sou assim. Quando tinha 5
anos, trabalhava com cera de abelha e, escondido do meu pai, modelava
uns bonequinhos".
É assim, frase ao léu, que Santos, conhecido como
Véio, encurta o caminho que leva à origem da
chamada arte popular. Feita por autodidatas vindos das camadas simples
da população, essa arte, de difícil
conceituação, não raro é
tomada por artesanato ou, no máximo, como
manifestação pitoresca. Naify. Primitiva.
Pois Véio, na última quinta-feira, ao conduzir
uma visita guiada seguida de coquetel, começava a
desvencilhar-se dessas palavras para saltar para outro verbete: arte.
"Era um antigo sonho. Tratar esses artistas como artistas. E ponto",
diz a galerista Vilma Eid, artífice do movimento que busca
dar novo status à arte popular.
Ela chamou o pintor Paulo Pasta para escrever sobre o ex-cortador de
cana José Antonio da Silva (1909-1996), o curador Rodrigo
Naves para refletir sobre o escultor sertanejo José Bezerra
e Paulo Monteiro para avalizar Véio. "Com essas
aproximações, estamos chegando a um novo
público."
Seja ou não graças à mão de
verniz, a arte popular tem visto os preços subir. Em
São Paulo, onde durante muitos anos uma só
galeria especializada existia, a Brasiliana, hoje há outras
duas: a Estação e a Pontes. "Proporcionalmente,
foi a arte mais valorizada nos últimos cinco anos", diz a
leiloeira Soraia Cals. Até 2005, essas obras não
ouviam o barulho do martelo. Hoje, representam 15% das peças
leiloadas. Mas o dinheiro ainda é mínimo.
Mesmo os nomes mais valorizados, como os escultores Vitalino
(1909-1963) e G.T.O. (1913-1990) e os pintores Heitor dos Prazeres
(1898-1966) e Silva, custam pouquíssimo se comparados
à arte dita erudita. Um quadro de Prazeres não
ultrapassa os R$ 40 mil. Uma boa peça de Vitalino, o
colhedor de algodão que viu seus bonecos partirem das feiras
de Caruaru para os salões de arte, sai, no
máximo, por R$ 25 mil.
"Há um preconceito em relação
à arte feita por quem está na base da
pirâmide social", diz Roberto Rugiero, da Brasiliana. "Tanto
que, muitas vezes, quem compra essas peças ainda as deixa
reservadas à casa de campo. Mas houve um tempo em que
não era assim."
Rugiero refere-se ao modernismo e ao desejo de fusão entre
popular e erudito. Foram os modernistas que festejaram Silva e Vitalino
e se deixaram levar por temas tipicamente populares - basta lembrar dos
sambistas de Di Cavalcanti e dos retirantes de Portinari.
"Não consigo pensar em popular ou não popular, e
sim em bons e maus pintores", diz Pasta. "O Silva tinha faro para a
questão do plano, inteligência do olho,
intuição." Parece que o diálogo
existente nos anos 1930 e 1940 e depois silenciado volta a sussurrar.
"Passamos muito tempo vendo essa arte como pitoresca", diz, numa
espécie de mea-culpa, o crítico Rodrigo Naves.
"Me parece que a arte contemporânea está cada vez
mais acadêmica, repetitiva. Também por isso a
originalidade do Zé Bezerra me atraiu."
A galerista Edna Pontes arrisca outra explicação:
"A arte popular está sendo beneficiada pela
valorização da brasilidade". Rugiero, por sua
vez, acha boas as adesões, mas mantém um
pé atrás. "A ausência de uma
referência crítica dá margem a blefes.
Outro risco é transformar o artista em mico de circo e
enxergar autenticidade no que é só
repetição."
Nuno Ramos, que não havia pousado os olhos sobre arte
popular até ser apresentado a Bezerra, gostou do que viu,
mas teme generalizações. "Temos que tomar cuidado
com o discurso populista do "vamos dar uma chance" ou "olha que
história incrível a dele'".
Esse temor estende-se, inclusive, aos artistas. "Tem vezes que
só querem que a gente fale que trabalhou na lavoura, essas
coisas", diz o pintor Nilson Pimenta que, quando menino, na
roça, desenhava em cercas e árvores e hoje vive
de arte. "Mas se virem também o que eu pinto, aí
já tá bom."
Fonte:
Jornal Folha de S. Paulo - Ilustrada
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