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Exposição individual
de Valdir Sarubbi - Desenhos,
pinturas e relevos.
Curadoria: Alex Cerveny.
Abertura: terça-feira, 30 de novembro,
às 19 horas.
Dando sequência ao ciclo de palestras e debates sobre a
“Identidade Cultural Brasileira” nesse dia
haverá uma mesa-redonda com Sheila Mann e Renato
Rezende, às 20 horas.
Período: de 30 de novembro de 2010 a 15 de janeiro
de 2011 - De segunda a sexta, das 10 às 19 horas;
e sábado das 10 às 17 horas.
Valdir Sarubbi – a
força de uma ausência
Não é tarefa simples
escrever sobre Valdir Sarubbi; pois tanto sua pessoa como sua obra
(ambas homenageadas com esta exposição no
décimo aniversário de sua morte) não
são afeitas à superficialidades e rotulagens.
Ademais, ambas – pessoa e obra – se confundem em
mim; em muitos de nós, que fomos seus alunos, seus amigos,
seus escolhidos e que o amamos e fomos por ele amados. Acima de tudo,
Sarubbi possuía uma profunda capacidade de amar: amava
generosamente, com profundo respeito pela individualidade de cada aluno
ou amigo, permitindo o florescimento de cada relacionamento com a mesma
sensibilidade e esmero que percebemos em suas obras
plásticas. Sua morte precoce (ele não concordaria
com esta expressão, consideraria uma
contradição em termos) inaugurou uma
ausência fundamental na vida dos seus entes mais
próximos e mais queridos – e também na
história da arte no Brasil.
Eu conheci Valdir Sarubbi em 1980,
inicialmente como aluno, depois como amigo, em seu “Atelier
Livre”. O Brasil começava a respirar os ares mais
livres do fim da ditadura militar e, pouco a pouco, com o advento da
democracia, uma vida cultural e intelectual mais articulada e
institucionalmente organizada foi se restabelecendo no país.
Nas artes visuais, as estratégias de resistência e
experiências conceituais de artistas como Cildo Meireles,
Antônio Manuel, Barrio e outros deram lugar a euforia e
gestualidade da chamada Geração 80. Como tende a
acontecer em países ainda em formação,
desprovidos de uma tradição filosófica
forte e, ainda por cima, sujeitos à regimes
totalitários, tanto as tendências
artísticas dos anos 1970 como as dos anos 1980 tinham algo
de “movimento”, de dogmático –
uma agenda exterior ao trabalho plástico em si. Isso fica
evidente, por exemplo, no depoimento de Brígida Baltar sobre
o início de sua carreira: “Lá [no
Parque Lage] encontrei uma pré-cena Como vai você
geração 80? e os estímulos eram para
quanto mais gesto e cor melhor. Eu sofri bastante, tentando me
identificar nesse caminho, ‘soltar’ as formas,
ainda usando lápis de cor, mas os desenhos eram de uma
sutileza fora de lugar. Eu ia tentando exaustivamente, chegar aquela
gestualidade toda – como se fosse uma
direção certa e única a se
seguir”.[1]
Nada mais distante da pessoa e da obra de
Valdir Sarubbi do que tais movimentos totalizantes, impositivos ou
militantes (por mais que possamos estar de acordo com os
princípios e valores defendidos por tal
militância). Extremamente consciente do que é ser
um artista e como se desenvolve uma linguagem artística
sensível, o próprio Sarubbi deixa isso
claríssimo em várias ocasiões:
“O importante para mim não é o
engajamento do artista dentro de tendências ou movimentos
específicos, mas uma visão aberta de quem olha a
obra de arte para apreciá-la naquilo que ela apresenta de
sensível, seja sobre que forma for. O importante para mim
é que a arte que o artista faz seja um reflexo dele mesmo e
não uma dublagem de tendências
artísticas orquestradas pela mídia ou uma simples
ilustração de teorias artísticas
contemporâneas. Muito importante é o processo
criativo do artista, que se desenvolve na medida em que ele cresce como
pessoa humana. Sem queimar etapas, sem pressa para atingir o sucesso.
Este crescimento se reflete no amadurecimento de sua obra.”
[2]
Passado já uma década
desde sua morte, constata-se que o Brasil ainda não foi
capaz de merecer um artista do porte de Valdir Sarubbi. Se a
memória de sua pessoa continua pulsando em cada um de
nós – seus amigos – na forma de gestos
adquiridos, lembranças e afetos (são
inúmeros, por exemplo, os objetos que ainda mantenho da
época do Atelier Livre, e que me remetem diretamente
à presença do Valdir e suas
lições salutares), a ausência de seu
nome em compêndios e retrospectivas de arte que têm
sido promovidas nos últimos anos no Brasil, já
consistentemente democrático e economicamente pujante,
é um eloquente lembrete do quanto ainda temos que amadurecer
enquanto nação.
Ainda não fomos capazes de
assimilar uma obra desgarrada do mainstream e capaz de levar a
linguagem plástica a elevados níveis de
complexidade e sofisticação. Como poucas, a obra
de Valdir Sarubbi, jamais se afastando do rigor de uma sensibilidade
refinada e intuitiva, constitui um pensamento. Há uma
qualidade investigativa, e quase obsessiva, em séries como
Meditação Labiríntica e Antiguos
Duenõs de las Flechas, como se houvesse uma procura, um
intrincado mapeamento de memórias e afetos (que
não buscam ser resolvidos, mas apenas revelados,
descobertos, elaborados) – não por acaso o rio,
com suas profundezas, sombras e sinuosidades, aparece como uma de suas
mais fortes metáforas. É quase
sintomático que a memória tenha sido um dos temas
mais recorrentes da obra de Valdir Sarubbi. Suas últimas
telas, cheias de leveza e luz, atestam sua fé no
espírito humano – espírito que ele
tanto reconheceu e cultivou em si mesmo e em todos aqueles que tiveram
o privilégio de compartilhar sua vida.
Notas:
1. Baltar, Brígida. Passagem Secreta (org. Márcio
Doctors). Rio de Janeiro: Funarte/Circuito, 2010.
2. Bittar, Rosana. Sarubbi. Belém: Estacon, 2002.
Renato Rezende
Site
oficial de Valdir Sarubbi: clique aqui
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