“O romance do pavão mysteriozo” (1923) de José Camelo de Melo Rezende, o cordel mais clássico, conhecido e vendido.

Na exposição e no livro “A xilogravura popular – xilógrafos e poetas de cordel” essa xilogravura é mostrada e diz: “O livro traz a história e a análise do cordel e traça a relação entre cordel e xilogravura. Para essa exposição, os curadores adquiriram junto ao marchand recifense e proprietário da Ranulpho Galeria de Arte, Carlos Ranulpho de Albuquerque, algumas xilogravuras antigas.”

Segue um trecho de outro livro: “Vendo o retrato da condessinha trancada pelo pai, em Atenas, e que só aparece à janela durante uma hora, uma vez por ano, Evangelista apaixona-se por ela. (…) Para isso, contrata um engenheiro e artista que descobre um meio de acesso: inventa um aeroplano na forma de um pavão. Evangelista faz incursões ao quarto da princesa, que a princípio se assusta e chama o pai. O moço desaparece, pelo telhado, no seu pavão. O pai entrega à filha uma banha amarela para passar na cabeça do intruso, que assim é identificado e preso, mas consegue escapar no seu pavão. Evangelista faz outra visita à condessinha: em prantos, ela lamenta tê-lo traído, reconhece o despotismo do pai ao privá-la de liberdade. Decide fugir com ele. Fogem, no pavão, para a Turquia. O conde morre de raiva e a mãe, conciliadora – “saíste do cativeiro / fizeste bem em fugir”‘ — chama o jovem casal para morar em Atenas. O enredo sugere passado (a condessinha trancafiada pelo pai…) mas apresenta aspectos modernos (fotógrafo, jornalista). A fantasia unida ao engenho moderno cria a ave e o mistério: um aeroplano travestido de pavão. (…) O romance é muito bem escrito, com momentos de grande espontaneidade. Veja-se o pavão: Movido a motor elétrico depósito de gasolina com locomoção macia que não fazia buzina a obra mais importante que fez em sua oficina. Tinha cauda como leque as asas como pavão pescoço, cabeça e bico lavanca, chave e botão (sic) voava igual ao vento para qualquer direção.”

Maria José Fialho Londres. In “Cordel: Do encantamento às histórias de luta”. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983. Apresentada como tese de doutoramento à Universidade de Paris III, Sorbonne, em 1978.