
Artesanato
Todo dia morremos um pouquinho:
na gaveta a camisa desbotada,
o passado não cabe mais na casa,
e o tempo andou metade do caminho.
Todo dia esquecemos nossa morte:
nas festas sem paixão de fins de tarde,
no prazer que não dura o seu alarde,
as viagens verticais sem passaporte.
Todo dia morremos uma parte.
O corpo sabe disso e quer o mar,
mas perder nos ensina a caminhar
– morrer a cada dia é uma arte.
João Filho (Bom Jesus da Lapa, Bahia, 1975). Vencedor do Prêmio Alphonsus de Guimaraens (2015), concedido pela Biblioteca Nacional pelo livro “A dimensão necessária” (2014), ele é um dos grandes nomes da poesia contemporânea. In “Revista Sombra”, 1ª edição, revista literária que acompanha mensalmente os livros da Pessôa Editora
